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9/05/2009


Escrever é preciso, viver não é preciso

À
s vezes, fico pensando: será que Hemingway manteria um blog? Sim, claro. E seria um blog delicioso, com muita coisa saborosa. Deu no UOL que o Nobel José Saramago disse adeus aos leitores de seu blog, no qual postava suas opiniões e reflexões pessoais, desde 15 de setembro de 2008.
Brasília - “É conveniente que as despedidas sempre sejam breves” – escreve Saramago, em seu último post. “Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não acho.” Em post scriptum, repensa: “Pensando melhor, não se deve ser tão radical. Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, chamarei à porta do Caderno, que é o lugar onde mais à vontade poderei expressar-me”. O Nobel explicou que a razão de seu adeus está ligada à preparação de um novo livro, ao qual, é claro, quer dedicar todo seu tempo. “Enquanto isso, aí tem Caim” - informa, fazendo publicidade do seu novo romance, que estará à venda em outubro.
UOL: “Compilados recentemente, os artigos de O Caderno traçam uma crônica pessoal do escritor em um lugar que o próprio Saramago qualificou como “um espaço pessoal na página infinita da internet”, quando apresentou seu blog. O Caderno refletiu durante quase um ano o espírito crítico de seu autor, algo que não agradou, por exemplo, a Silvio Berlusconi, que se negou a publicar a versão italiana do livro em sua editora, a Einaudi, devido às críticas que Saramago fez em seus artigos ao primeiro-ministro da Itália”.
Saramago remete-me a um dos dois grandes dramas dos escritores. Um deles é o das dívidas. Escritores endividados, pais de família, não encontram paz para escrever, exceto se são compulsivos, como Honoré de Balzac, por exemplo, que, mesmo fugindo dos cobradores, escrevia compulsivamente e ainda encontrava tempo para fornicar com regular variedade. Mas o drama central é o da traição a si mesmo.
Ernest Hemingway devia ter 21 anos quando começou a trabalhar como correspondente na Europa, para um jornal do Canadá. Recém-casado, os dólares que ganhava davam para sustentar suas despesas em Paris, onde se baseou. Mas Hemingway queria ser escritor. Então, largou o jornal e passou a viver dos parcos rendimentos provenientes dos investimentos da sua esposa no mercado financeiro americano. Quantas vezes o autor de Paris é uma festa matou pombos com estilingue para saciar a fome. Mas, aos 26 anos de idade, ele escreveu algo revolucionário: O sol também se levanta. Então começou sua ascensão literária, até O velho e o mar e o Nobel.
De certa forma, mesmo um blog pode atrapalhar a criação de um romance. Os romancistas sabem que uma história de longo fôlego requer tanta concentração quanto fornicar ao longo de 12 horas. Assim, um romance é como uma mulher que recebe atenção integral ao longo de toda uma noite. E escrever um romance pode durar anos.
Muitos escritores, pensando que trairão menos o artista que reside neles, ingressam no jornalismo, o que não é de todo mal, pois mantêm a rotina de lidar com as palavras todos os dias, além de aprenderem, como ocorreu a Hemingway, a se expressar de modo claro, direto, enxuto. Mas a utilidade do jornalismo para o escritor termina aí. Depois que ele aprende alguns truques que lhe serão úteis ao encarar um trabalho de criação, é hora de cair fora das redações. É que, passando o dia a escrever notícias, o escritor acaba descarregando a bateria da criação. Porém somente grandes escritores sabem disso, desde garotos.
Contudo, há escritores tão prolixos, tão compulsivos, tão torrenciais, como Norman Mailer, que se não escreverem o tempo todo, seja lá o que for, enlouquecerão. E há uma terceira e uma quarta categorias. A terceira, é daqueles que eram ou pretendiam ser escritores, até se tornarem jornalistas, ou a ingressar em outra profissão qualquer, e matam o embrião da criatividade.
A quarta categoria de escritor é daqueles que mesmo sufocados pelo jornalismo são literalmente perseguidos pela literatura. São vítimas daquilo que Hemingway identificou como armadilha. Como não sabem a hora de cair fora das redações, acabam se enredando e não sabem mais como sair sem perder o padrão de vida que proporcionam a suas famílias, ou mesmo não sabem como sobreviver de outra coisa, senão o jornalismo. Mesmo assim, não podem deixar de criar, pois personagens os perseguem em sonhos, em gritos que só eles ouvem, em visões que apenas eles veem.
Só resta, então, dar o expediente no jornal e, sempre que a solidão permite, encontrar-se com Cara de Catarro, Galicíssimo, Agostinho Castro e Castro, os Picanço Cardoso, Boca de Sacola, Frênia, Lola, mulheres de olhos bicolores e sabor de Mateus Rosé...
Às vezes, fico pensando: será que Hemingway manteria um blog? Sim, é claro. E seria um blog delicioso. Com certeza seria da putada, com muita coisa saborosa, pois o Velhão sempre teve o que dizer.
Voltando ao blog do Saramago, só resta aguardar ele terminar seu próximo romance. Morto o leão, quem sabe voltará a dar pinceladas na internet, para gáudio dos seus leitores.

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